28/03/2011

BRASIL,UM PAIS MUITO CARO.



Pouco mais de seis meses atrás, de férias no Brasil, fiz uma lista sobre o preço exorbitante de coisas corriqueiras de marcas importadas. Tinha acabado de voltar de um shopping em Brasilia escandalizada em como artigos do dia a dia, baratos no exterior, tinham se transformado em artigos de luxo num passe de mágica, ao simples cruzar de nossas fronteiras.
Fiquei chocada com os preços dos sapatos, cafeteiras, calças jeans,brinquedos,maquiagens e muito mais.

Como pode um chinelo da Camper,marca espanhola de sapatos, custar  398 reais? Um chinelo de borracha, que nem bonito é? E uma cafeteira Nespresso por 1.700 reais?

Eu já tinha visto vestidinhos básicos na Zara por 299 reais. Blusinhas simples por quase 100. Sandálias a quase 200. Juro, não entendo. Creio que toda essa loucura começou com as calças da Diesel a mais de 1.000 reais. Calças que, todo mundo sabe (ou não, sei lá), são vendidas a cerca de 100 euros na Europa. Na época das promoções, elas caem pra tipo 40 euros. Mas no Brasil seguem custando quase dez vezes mais. O pior,viraram fetiche.

Assim como virou fetiche ter sapato da Camper, que custa 800 reais ou mais. Na Italia ,e ate mesmo aqui na Grecia onde vivo uma sapato desses nao sai por mais de 100 euros o par (na maioria das vezes, metade disso). Nas botas de couro, no máximo 250..... Cafeteiras custam a partir de 150 euros em qualquer loja. Roupas da Zara podem ser compradas a partir de 5 euros, sem exagero. E o Smart, aquele carrinho minúsculo e fácil de estacionar? Custa menos de 15 mil euros, e no Brasil nao sai por menos de 60 mil reais.

Eu não vou entrar aqui no mérito do imposto de importação (que obviamente encarece muito qualquer coisa). O que mais me intriga é como marcas corriqueiras, do dia a dia, ganham um ridículo status instantâneo de fetiche no Brasil. É a coisa mais chique do planeta ter um sapato Camper, uma calça Diesel, uma cafeteira Nespresso (que vira objeto de decoração nas casas, muito mais que a utilidade doméstica que é, apesar do indiscutível apelo design).

Seguindo esse raciocínio, provavelmente no dia em que a rede de móveis e objetos de decoração IKEA (famosa por oferecer todo tipo de artigos para a casa a preços baixos) chegar ao Brasil, os preços serão compatíveis com os do shopping D&D de SP. Ai sim sera triste!!!

Moral da Historia: Consumo sim, mas consciente e inteligente.

LEIA MATERIA DA SUPERINTERESSANTE:

Por que tudo custa mais caro no Brasil?
Nossos preços estão entre os mais altos do mundo. Pagamos 3, 4 vezes mais por qualquer coisa. Mas o maior problema é outro: muita gente adora isso
por Pedro Burgos e Alexandre Versignassi

É tanta muamba que o português dos vendedores de shopping da Flórida está mais afiado do que nunca. Os brasileiros são os turistas que mais compram nos EUA: US$ 4,8 mil por pessoa, à frente dos japoneses.

Nossos gastos no exterior em 2010 tinham passado de US$ 11 bilhões até setembro, um recorde. Agências de turismo já oferecem pacotes sem parques de diversão no roteiro, só com traslados para grandes shoppings e outlets.

Estamos virando um país de contrabandistas. Natural. Veja o caso do iPad. Aqui, nos EUA ou na Europa, ele é importado. Vem da China. Em tese, deveria custar quase igual em todos os países, já que o frete sempre dá mais ou menos a mesma coisa. Mas não. A versão básica custa R$ 800 nos EUA. Aqui a previsão é que ele saia por R$ 1 800. No resto do mundo desenvolvido é raro o iPad passar de R$ 1 000. E isso vale para qualquer coisa. Numa viagem aos EUA dá para comprar um notebook que aqui custa R$ 5 500 por R$ 2 300. Ou um videogame de R$ 500 que bate em R$ 2 mil nos supermercados daqui. E os carros, então? Um Corolla zero custa R$ 28 mil. Reais. Aqui, sai por mais de R$ 60 mil. E ele é tão nacional nos EUA quanto no Brasil. A Toyota fabrica o carro nos dois países.

Por que tanta diferença? Primeiro, os impostos. Quase metade do valor de um carro (40%) vai para o governo na forma de tributos. Nos EUA são 20%. Na China também. Na Argentina, 24%. O padrão se repete com os outros produtos. E haja tributo. Enquanto o padrão global é ter um imposto específico para o consumo, aqui são 6 - IPI, ICMS, ISS, Cide, IOF, Cofins. Ufa. Essa confusão abre alas para uma sandice que outros países evitam: a cobrança de impostos em cascata. O ICMS, por exemplo, incide sobre o Cofins e o PIS. Ou seja: você paga imposto sobre imposto que já tinha sido pago lá atrás. Tudo fica mais caro. E quando você soma isso ao fato de que não, não somos um país rico, o vexame é maior ainda. Levando em conta o salário médio nas metrópoles e o preço das coisas, um sujeito de Nova York precisa trabalhar 9 horas para comprar um iPod Nano (R$ 256 lá). Nas maiores capitais do Brasil, um Nano vale 7 dias de trabalho do cidadão médio (R$ 549).

A bagunça tributária do Brasil não é novidade. A diferença é que os efeitos dela ficam mais claros agora, já que existem mais produtos globalizados (Corolla, iPad...) e o real valorizado aumenta o nosso poder de compra lá fora (quando a nossa moeda não valia nada, antes de 1994, era como se vivêssemos em outra galáxia - não dava para fazer comparações).

Mas sozinho o imposto não explica tudo. Outra razão importante para a disparidade de preços é a busca por status. Mercado de luxo existe desde o Egito antigo. Mas no nosso caso virou aberração. Tênis e roupas de marcas populares lá fora são artigos finos nos shoppings daqui, já que a mesma calça que custa R$ 150 lá fora sai por R$ 600 no Brasil. O Smart é um carrinho de molecada na Europa, um popular. Aqui virou um Rolex motorizado - um jeito de mostrar que você tem R$ 60 mil sobrando. O irônico é que o preço alto vira uma razão para consumir a coisa. Às vezes, a única razão. Como realmente estamos ficando mais ricos (a renda per capita cresceu 20% acima da inflação nos últimos 10 anos), a demanda por produtos de preços irreais continua forte. Os lucros que o comércio tem com eles também. E as compras lá fora idem.

O resultado mais sombrio disso é o que os economistas chamam de doença holandesa: o país enriquece vendendo matéria-prima e deixa de fabricar itens sofisticados - importa tudo (ou vai passar o feriado em Miami e volta carregado). Por isso mesmo o governo reclama da desvalorização excessiva do dólar e do euro, que deixa tudo ainda mais barato lá fora. Aí não há indústria que aguente.

Mas tem um outro lado aí. "É interessante ver que parte da indústria importa bens intermediários, que são usados para fazer outros produtos. E agora eles serão mais baratos. Então o câmbio apreciado pode ser bom", diz o economista Carlos Eduardo Gonçalves, da USP.

O governo também tem agido contra o mal do câmbio. Em agosto, cortou várias taxas de máquinas industriais e zerou os impostos para a fabricação de aviões. Outros 116 bens da indústria de autopeças que não têm similar nacional tiveram seu imposto de importação praticamente zerado. Já é um começo. Esperamos que, em breve, passar 9 horas no avião para comprar um laptop possa deixar de fazer sentido. Porque é bizonho.


Quer pagar quanto?

Preços de alguns produtos no Brasil e nos EUA, em reais:

Hyundai Veracruz
EUA - R$ 48 mil
Brasil - R$ 150 mil

Playstation 3
EUA - R$ 500
Brasil - R$ 1 999

Perfume CK One 200 ml
EUA - R$ 50
Brasil - R$ 299

Carrinho de bebê Chicco
EUA - R$ 500
Brasil - R$ 1 849