10/02/2011

ESPERANZA PACHOU - ATENAS - GRECIA - Na Terra dos ''Deuses'', o Amor fala mais alto....


 
Esperanza Pachou

 Meu nome é Esperanza, sou brasileira mas moro em Atenas, Grécia há 29 anos...
Como o tempo passa rápido!
Era o ano de 1979, eu tinha nessa época 16 anos e estava passando um ano na Europa, aprendendo línguas no Institut Le Mesnil em Montreux na Suiça.
Nas férias da escola meus pais vieram do Brasil me ver e fizemos um cruzeiros pelas ilhas gregas.
Nesse cruzeiro conheci Tassos que estava fazendo seu estágio da escola de hotelaria de Glion. Eu já tinha em mente fazer esta mesma escola. Conhecia gente que estudava lá.
Foi paixão a primeira vista!              
Eu tinha que voltar para o Brasil para terminar o colégio. Namoramos 2 anos e meio e naquela época não tinha internet eram cartas, telefonemas. Nos encontramos uma vez na Espanha,duas vezes no Brasil e uma na Grécia.
Depois de terminar o segundo grau quis fazer a mesma escola de hotelaria que ele tinha feito mas como terminamos no Brasil o ano escolar em dezembro e na Suiça só começa em agosto, nos casamos para estarmos juntos.
Acho que ninguém entendeu muito aquilo, eu ainda ia fazer 19 anos e queria estudar hotelaria mas no fundo sabia que não íamos mais aguentar ficar separados, não havia mais o motivo da escola, eu queria estar com ele e naquela época a unica maneira era de se casar.
Nos casamos em fevereiro de 82, em pleno Carnaval e fui morar com ele em Atenas na casa de seus pais. Me inscrevi em um curso de grego para estrangeiros, falávamos em francês juntos, mas a família dele só falava grego...Em agosto acabou a lua de mel!
Fui fazer o tal curso de hotelaria na Suiça , 9 meses de teoria e 6 de prática, onde finalmente terminei sendo uma excessão pois normalmente todos tem que fazer 3 meses obrigatórios de prática em um hotel na Suiça, mas eu porque era casada fiz os seis aqui no Hotel Intercontinental. Lembro que cheguei a chorar pedindo ao responsável dos estágios! E ele dizia que não era possível...

Esperanza e Tassos

Até então o lado profissional era importantíssimo, eu queria ser independente mas nossos horários eram contrários. Eu trabalhava de manhã até a tarde e ele de tarde até a noite! A família dele tinha uma cafeteria que ficava aberta até tarde da noite e ele é quem ficava nesse horário! Depois de dois anos e meio de namoro longe um do outro, nove meses de estudos já casados mas de novo longe,seis meses de estágio onde os horários eram diferentes e não nos encontrávamos, terminei optanto por trabalhar com ele, só para estarmos juntos.Agora vejo que ninguém tem tudo na vida! Meu lado profissional é meio frustrado, mas por outro lado eu estive muito presente como mãe para os meus três filhos. Quem sabe esse lado profissional ainda venha por aí...
O primeiro filho nasceu em 1985, eu tinha na época 22 anos, o segundo 2 anos depois e a pequena depois de seis anos, eu já tinha 30 anos. Participei intensamente da vida deles,escola, festinhas,esportes...Eu realmente vivi essa fase de mãe e fui muito feliz em fazê-lo.
Quanto ao lado profissional ,"ajudava" muitas vezes no negócio da família. Não é facil trabalhar com o marido pior ainda em uma empresa familiar... O fato é que não posso dizer que estou satisfeita nesse setor da minha vida. Morar fora muitas vezes tem isso, a gente não pode contar com o esquema brasileiro de empregada.O lado profissional é geralmente sacrificado pelo maternal.
Mas para casos como o meu, que vim tão jovem, é como ter dois países. Eu adoro a Grécia. O clima, a comida,a paisagem,as pessoas, a língua. Acho que já virei meio grega se bem que nunca vou deixar de ser brasileira. Já passei por fases péssimas de chorar sem poder parar e de me sentir com sentimento de culpa por estar assim tão deprimida. Eu me dizia"Voce tem três filhos com saúde e fica chorando desse jeito...Qual é a sua?" Mas vivia me perguntando: O que é que voce está fazendo aqui?" A pior época é Natal, Ano novo, Aniversários. O que me ajudou muito nessas fases foi a nossa M.P.B.. Nossa linda e maravilhosa Musica Popular Brasileira. Comecei a fazer amizade com pessoas que trabalhavam em uma rádio aqui, fazia cópias de c.d. e dava para eles, telefonava sempre para a rádio pedindo música brasileira. Ainda faço!
É diferente de se escutar uma música sozinha, assim a gente está compartilhando algo nosso com eles e isso nos faz bem, a nós, os "exilados"!

Em Atenas, Esperanza e a familia reunida
 Estamos dando testemunha da nossa presença aqui, nesse fim de mundo! Mostrando o que temos de melhor, nossa música! Nos identificamos com ela e isso nos dá alegria, um sentimento de valor, sei lá... Isso é uma coisa que me faz falta aqui. Eu não gosto muito da música grega.
Me faz falta os shows maravilhosos que temos, escutar música velha e nova mas sempre brasileira nas rádios, o tempo todo!
Tenho amigos gregos mas também brasileiros. Acho muito importante esse equilíbrio,nunca é bom ficar morando em um outro país mas só
tendo contato com brasileiros, mas o contrário pode ser tambem um horror, ou seja depois de alguns anos esquecer da nossa própria língua...
Já vi gente assim aqui.
Não consegue terminar uma frase em portugues, coloca sempre palavras gregas no meio.
O que seria o ideal para mim? Ir mais vezes ao Brasil, pois se eu não for lá não estou bem aqui ...
Se for algum dia para morar de vez,espero que o marido e os filhos não reclamem, não aguentaria cara feia deles, achando tudo ruim...
Mas o que gostaria mesmo é impossível...Que não fosse tão cara, longe e cansativa a viagem para lá! Eu preciso pegar 3 aviões, são mais de 20 horas viajando e sempre fica caro as passagens pois somos cinco pessoas. Se colocarmos em um papel o dinheiro que gastamos em bilhetes de avião durante todos esses anos só para ver a família e matar as saudades, é uma fortuna, e é claro deixamos de conhecer lugares novos . Mas eu não me arrependo de nada, vejo meus filhos e tudo que fiz faria de novo, para tê-los exatamente como são, gregos-brasileiros, com o temperamento e a mentalidade daqui e de lá, com a beleza e o jeito de ser dessa mistura fina. O casamento tanto aqui como lá passaria por fases difíceis.Acho até que os casais que são de diferentes nacionalidades são mais cuidadosos, sabem da loucura que seria uma separação pois haveria uma grande possibilidade dos filhos perderem a presença de um dos dois,enquanto que se os dois são do mesmo lugar mesmo separando estão na mesma cidade. Existe lógico o problema da língua, mesmo a gente falando nunca chegaremos a falar perfeitamente, e escrever pior ainda, pelo menos em grego! Nos sentimos muitas vezes mal por não podermos nos expressar como queríamos, por não ter um vocabulário tão rico, principalmente quando temos filhos na escola, redacão de uma criança que tem pais de diferentes nacionalidades nunca é tão boa quanto a de um que os pais são da mesma, por outro lado, uma criança bilingue tem a capacidade de aprender outras línguas mais facilmente. Mas o importante mesmo é nossa mente está aberta para compreender as pessoas seja qual for a nacionalidade.
Acredito que a gente cresça espiritualmente morando fora, a solidão, o desconsolo, o sofrimento, a saudade, tudo isso faz com que a gente veja um outro lado da moeda, tudo tem um custo. Agora eu quero contar algo que me passou não faz muito tempo... Meu filho mais velho de 25 anos passou 3 meses na Nova Zelandia e estava adorando, eu morri de medo dele querer ficar morando lá! É muito longe!!!
Meu pai disse para minha mãe quando eu me casei : "Daqui a dois anos ela está de volta"
Agora em março estou completando 29 anos aqui!